A história não se repete, ela se estende até a náusea

05/10/2021 15:08:44
Editora Hedra
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Por Marcus Mazzari. 

O Rabi de Bacherach e três artigos sobre o ódio racial
Heinrich Heine

O famoso Caso de Damasco — que originou de imediato uma série de artigos de Heine, publicados no Augsburger Allgemeine Zeitung — foi uma acusação de assassinato ritualístico levantada contra a comunidade judaica da capital síria em 1840. Durante vários meses, o caso ocupou a opinião pública internacional, levando a complexas negociações diplomáticas entre potências europeias, sobretudo a Áustria de Metternich e a França (governada então por Louis-Adolphe Thiers) e o Império Otomano e seus representantes no Oriente Médio.

Já em sua época, o assunto não pôde ser inteiramente esclarecido, e várias contradições impossibilitam ainda hoje uma reconstituição mais precisa de seus detalhes e desdobramentos.

No dia 5 de fevereiro de 1840, o frade capuchinho Tommaso da Sardegna desaparece misteriosamente de Damasco, onde vivia num albergue francês desde 1806. Poucos dias antes, algumas pessoas (entre as quais um comerciante turco) presenciaram, numa praça central da cidade, um violento desentendimento entre o frade e um vendedor de mulas muçulmano, durante o qual aquele amaldiçoara o islã e o vendedor gritara, sob extrema exaltação: Esse cachorro cristão vai morrer pelas minhas mãos!.

Apesar disso, o cônsul francês em Damasco, Ratti Menton, que recebe a incumbência de apurar o caso, concentra as investigações no bairro judeu, onde o frade teria sido visto pela última vez.

A primeira vítima dos acontecimentos é um jovem judeu, açoitado até a morte pela população açulada após afirmar ter visto o frade, pouco antes de seu desaparecimento, em outra parte da cidade. Vários judeus são detidos e levados à prisão local, assim como ao consulado francês, onde são torturados de maneira brutal. Alguns resistem à tortura, mas outros (como um idoso de oitenta anos) sucumbem; outros ainda se convertem ao islamismo ou fazem confissões disparatadas, que acabam levando a novas prisões e torturas.

Um dos torturados declara que o receptor do sangue do frade teria sido o principal rabino de Damasco, Jacob Antini, que é imediatamente preso e torturado. Não obtendo deste nenhuma confissão, as autoridades muçulmanas, manipuladas pelo cônsul francês, prendem outro rabino, Moses Abu Afie, obrigando-o a converter-se ao islamismo.

Em uma etapa posterior, as investigações voltam-se às circunstâncias do desaparecimento do criado do frade Tommaso. Um muçulmano de nome Murad-el-Fallat, que trabalhara para um dos judeus incriminados, afirma ter visto o criado (amarrado e amordaçado) na casa de outro conceituado judeu damasceno, Meir Farchi, e cita como testemunha, pois também estaria presente na casa, o cidadão austríaco Isaac Piccioto, que é detido e interrogado. Piccioto, porém, apresenta um álibi consistente, confirmado por um cidadão inglês e pelo próprio cônsul da Inglaterra. Murad-el-Fallat muda então seu depoimento e cita outros nomes de judeus. Desencadeia-se nova onda de prisões e recrudesce a perseguição à população judaica de Damasco, que contava na época cerca de 30 mil pessoas.

A perseguição espalha-se para outras cidades, como Beirute e Esmirna, reforçada pela acusação (o chamado libelo de sangue) de que os judeus, segundo a orientação de seus escritos religiosos, necessitam de sangue cristão para a preparação dos pães ázimos do pessach. O cônsul francês providencia traduções para o árabe de velhos panfletos cristãos sobre esse suposto ritual, e ordena a sua distribuição entre a população muçulmana.

Essa espiral de violência é, porém, quebrada com a corajosa intervenção do cônsul austríaco em Damasco, Anton Laurin, que protege de modo consequente seu conterrâneo Isaac Piccioto e envia ao chanceler Metternich relatos minuciosos sobre o “horripilante interrogatório de alguns israelitas de Damasco suspeitos do assassinato do padre Tommaso da Sardegna e de seu criado”. Desenvolve também várias gestões junto ao paxá e vice-governador do Egito, Mehemet Ali, o que tem por consequência a decretação do fim das torturas e a libertação de todos os acusados. Outros detalhes da intervenção do cônsul Laurin, assim como do engajamento igualmente corajoso e humanitário do advogado francês Isaac Adolphe Crémieux, são apresentados nos artigos de Heine.