Dostoiévski e a pintura russa

05/10/2021 14:15:06
Editora Hedra
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Por Suzana Salama.

Diário de um escritor
Fiódor Dostoiévski

Elena Andrêievna Stakenschneider, filha do arquiteto da corte Nicolau I, mantinha em São Petersburgo um salão literário frequentado por Dostoiévski, de quem era amiga próxima. Em seu diário, foi encontrada a seguinte passagem sobre o escritor: 

A fama de Dostoiévski não foi causada por sua condenação à prisão, nem por Recordações da casa dos mortos. Nem mesmo por seus romances – ao menos não principalmente por eles —, mas pelo Diário de um escritor. Foi o Diário que tornou seu nome conhecido em toda a Rússia, que o fez mestre e ídolo da juventude. Mas não apenas da juventude, também de todos aqueles torturados pelas questões que Heine chamou malditas.

Meia-carta de um sujeito é o primeiro de quatro volumes da série Diário de um escritor, que reunirá todos os artigos escritos por Fiódor Dostoiévski, de 1873 a 1881 sobre os mais diversos temas, em coluna homônima para a revista O cidadão — que, conhecida pelo teor polêmico, eram populares à época. Em constante diálogo com o leitor, Dostoiévski pratica a metaliteratura, refletindo sobre sua produção durante o próprio processo produtivo.

Nos fragmentos selecionados neste artigo lemos um comentário sobre arte, especificamente a Exposição Mundial de Viena, presente no texto A propósito de uma exposição. E que não deixava de ser uma grande questão em sua época: em uma Rússia polarizada, dividida no debate entre eslavófilos e ocidentalistas, Dostoiévski inicia o texto polêmico com a pergunta: Será que nossos pintores podem ser compreendidos lá, e sob qual ponto de vista eles serão apreciados?

A revista O cidadão, da qual Dostoiévski era também editor além de colunista, contava com o subsídio do futuro tsar Alexandre III e foi baluarte das ideias reacionárias na Rússia, situada à extrema-direita do espectro político.  A revista apresenta portanto passagens conservadoras — mas estão longe de constituir a essência ou o principal motivo de interesse do Diário


Na ilha de Valaam 
A. I. Kuíndji, 1873

*Ver pintura no início do texto

Reparem, por exemplo, nas duas bétulas da paisagem do Sr. Kuíndji (A vista de Valaam): no primeiro plano, um pântano e vegetação pantanosa; ao fundo, uma floresta, de onde surge não exatamente uma nuvem de chuva, mas uma bruma, uma névoa, e é como se essa névoa passasse por entre nós completamente; e no centro, entre nós e a floresta, duas bétulas brancas, luminosas e inabaláveis — o ponto mais forte do quadro. Mas o que há de especial nisso? Aqui há algo típico, e como é formidável! Talvez eu esteja enganado, mas este quadro não agradaria a um alemão.

Quanto à pintura histórica, nem há o que dizer – há tempos não nos destacamos pela pintura puramente histórica e, dessa maneira, não surpreenderemos os europeus; mesmo nossas telas de batalhas não provocarão muito interesse, até a migração dos circassianos (uma enorme tela variegada, talvez dotada de grandes méritos, não tenho como julgar) não produzirá, a meu ver, uma grande impressão no estrangeiro.


O hino dos pitagóricos
F. A. Brónnikov, 1869


Vejam, por exemplo, o caso de O hino dos pitagóricos, de Brónnikov: qualquer outro seguidor da pintura de gênero (mesmo entre os mais talentosos) deve ter-se surpreendido com a possibilidade de um pintor contemporâneo ter usado um tema como esse. Contudo, tais temas (quase fantásticos) são tão reais e necessários para a arte e o homem quanto a realidade corrente.


Os amantes do rouxinol
K. E. Makóvski, 1873


Já quanto à pintura de gênero, à nossa pintura de gênero, o que os europeus poderiam compreender dela? Só que, entre nós, ela já impera há anos e quase que exclusivamente; se temos algo de que nos orgulhar e para mostrar ao mundo é, sem dúvida, a nossa pintura de gênero. Vejam, por exemplo, o pequeno quadro (de Makóvski) Os amantes do canto do rouxinol.

O aposento de um pequeno-burguês, ou de um soldado reformado, que negocia passarinhos de canto e, provavelmente, também os caça. Podem ser vistas algumas gaiolas, banquinhos, uma mesa com um samovar em cima e, ao redor do samovar, os visitantes sentados: dois comerciantes ou vendeiros, os amantes do canto do rouxinol. O rouxinol se acha numa gaiola pendurada na janela e, certamente, está assobiando e chilreando sonoramente, para o deleite dos visitantes.

Olhamos para o quadro e sorrimos e, depois, ao nos reportarmos a ele, sentimos, sem saber por que, vontade de sorrir com alegria novamente. Podem rir de mim à vontade, mas, nessas pequenas telas, a meu ver, revela-se amor pela humanidade, não pela russa em particular, mas pela humanidade de um modo geral.


Os caçadores no descanso
V. G. Peróv, 1871


Um dos quadros mais notórios da pintura de gênero nacional. A tela é conhecida por todos há tempos: Os caçadores no descanso — o primeiro inventa histórias com entusiasmo e de caso pensado; o segundo o escuta e acredita piamente em tudo; e o terceiro não acredita em nada, encosta-se ali mesmo e cai na risada... Que cena fascinante! Claro, assim tão bem explicado, até os alemães entenderão, mas eles serão incapazes de compreender que se trata de um mentiroso russo que mente à moda russa.


Burlaki no Volga
I. E. Riépin, 1873


Logo que li sobre os burlaki do Sr. Riépin nos jornais, fiquei alarmado. O tema em si é temível: costumamos considerar os burlaki os mais aptos a representar a conhecida ideia de uma dívida impagável das classes superiores para com o povo. Eu estava preparado para encontrá-los uniformizados, com os conhecidos rótulos grudados em suas testas. E o que se deu? Para a minha satisfação, verificou-se que todo o meu medo foi em vão: estes são os verdadeiros burlaki, e nada mais.