Novo selo da Hedra

04/10/2021 16:36:34
Suzana Salama
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Última página do livro "Puerta de cielo", de Abraham Cohen Herrera

Ayllon foi chacham (sábio, em hebraico חכם) — ou rabino, de acordo com a tradição sefardita — das congregações de Londres e Amsterdã durante século XVII. E embora tenha sido um religioso de posições polêmicas, não poderia ser classificado simplesmente como talmudista ou secular. Seguiu Sabatai Tzvi (1626–1676), mas não por longo tempo. Casou-se com uma mulher informalmente divorciada, o que o levou a escrever uma carta aberta e polêmica sobre o assunto. Visitou vários países e comunidades judaicas pela Eupora e oriente como shaliach (emissário, em hebraico שליח) da congregação palestina de Safed. Declarou inofensivas obras cabalísticas consideradas até então altamente heréticas. Deixou Londres por conta de suas divergências intelectuais, tendo sido acusado pela própria congregação sobre sua conduta. Escreveu uma obra sobre cabala, nunca publicada, mantida até hoje em manuscrito na Inglaterra. Sua figura é tão difícil de classificar como a do seu contemporâneo, Baruch Espinoza, que também não poderia ser classificado como secular ou talmudista.

Descendente de portugueses de Évora, Espinoza foi expulso da comunidade judaica de Amsterdã em 1656, quando tinha 24 anos. E faleceu em 1677, 24 anos antes de Solomon Ayllon chegar a Amsterdã. Nunca se encontraram e nem poderiam, pois o chérem (maldição, em hebraico חרם) contra Espinoza ordenava que ninguém lhe pode falar, nem por escrito, nem conceder-lhe nenhum favor, nem debaixo do mesmo teto estar com ele, nem a uma distância de menos de quatro côvados, nem ler papel algum feito ou escrito por ele. Baruch Espinoza foi um pensador livre, ousado, polêmico e radical à época, mas sua radicalidade foi produzida principalmente no enfrentamento a questões teológicas. Sua ideia de Deus como natureza, onde nada é intrinsecamente bom ou ruim, fez com que o marcassem como ateu ou panteísta. Desde que foi afastado da comunidade, recebeu diferentes rótulos durante os séculos.

Como herege, Espinoza poderia ser o oposto do rabino Solomon Ayllon, que não fora expulso como ele. Mas não é. Ambos poderiam ser chamados humanistas, e por conta das convicções muito particulares sobre religião e sociedade foram censurados pela própria comunidade de diferentes formas.

Frequentaram na Holanda a mesma biblioteca, ainda ativa atualmente, a Ets Haim — “Livraria Montezinos”, fundada pela comunidade portuguesa em 1616. Lá talvez tenham compulsado o mesmo exemplar de Puerta de cielo, do espanhol Abraham Cohen Herrera, discípulo do mestre cabalista Isaac Lúria. As anotações internas do livro (que une ensinamentos do Sefer Yetzirá, Zohar, escola luriânica e metafísica neoplatônica) dizem que deve ser mantido como uma jóia. Também segundo as notas, foi doado à Ets Haim pelo rabino Jacob Ferrares para preservação de possíveis usos impróprios no futuro.

Puerta de cielo é um texto cabalístico impressionante e que fez parte da formação de Espinoza e Ayllon, entre tantos outros livros. O misticismo não apenas renova a tradição, mas preserva e dá novo significado. Pois na multiplicidade de interpretações dá-se a santidade do texto, estabelecida justamente na capacidade de se desdobrar.

Nesse novo selo editorial, pretendemos que a tradição seja revisitada através do estudo, da crítica histórica, da filosofia e literatura judaicas, mas também dos ritos, discussões, mudanças, lugares, línguas, culturas, luzes, mistérios — e sobretudo através de seu humanismo particular e significativo. Alegoricamente, as publicações que pretendemos publicar podem se perfazer como um encontro entre Ayllon e Espinoza, com a tradição e o enfrentamento, que fez parte de suas trajetórias. E a partir do logo, cujo símbolo cabalístico representa o Ein Sof (infinito, em hebraico אין סוף), iniciamos o nosso novo projeto editorial.