Uma nota sobre notas

05/10/2021 18:02:03
Editora Hedra
0 Comentário


Por Jorge Sallum.

As notas de rodapé dividem montanhas de livros. Há editores que preferem deixá-las ao fim da página, mais discretamente, como se importassem somente para aqueles que saem de uma sala de cinema, ainda com os olhos acostumados à escuridão, e decidem ler algo sobre o diretor ali mesmo, no calor da hora. Outros simplesmente condenam o hábito de anotar como algo fora de moda, ou pior, fora de gênero.

É verdade que nem toda história é digna de notas. Já vi notas de rodapé em gibis, mais incômodas do que cabelo em salada. Mas as que mais me irritam são mesmo as de tradutores que simplesmente não conseguiram chegar a uma solução justa e preferem explicar como foi difícil a escolha.

Notas são referências e não hiperlinks. Elas não levam o leitor para outra página do livro ou para outro universo. Elas fazem pensar mais na mesa repleta de livros de um escritor que não quer ser contradito. Li há pouco uma nota sobre notas do grande economista americano J. K. Galbraith em The great crash 1929, que já em 1955 não se conformava com o excesso de zelo e de teorias sobre rodapés: 

Muitos autores e editores já devem ter concluído que os leitores, em geral, sentem-se ofendidos com notas de rodapé. Eu não procuro ofender ou desencorajar nenhum cliente em potencial, mas acho a suposição tola. Nenhuma pessoa cultivada pode se incomodar com as pequenas letras ao final de uma página, e é provável que todos, leitores profissionais ou leigos, precisem localizar referências a um fato em particular. As notas de rodapé também nos dão um excelente índice do cuidado com que o assunto foi pesquisado.

Há livros inclusive incompreensíveis sem notas, como o de poemas de Góngora. Muitas vezes, depois de relê-los vinte vezes, recorrer a amigos, professores, e... infinitas notas, me encantei ou ri com a agudeza de um poema. Algo como uma piada contada em câmera lenta, que não teria a menor graça sem notas de rodapé.


XX

Luis de Góngora y Argote, 1583


Ilustre e formosíssima Maria,

Enquanto deixam ver-se a qualquer hora

Em tuas faces a rosada Aurora,

Febo em teus olhos e na fronte o dia,


E enquanto com gentil descortesia

Mexe o vento à madeixa voadora

Que a Arábia nos seus veios elabora

E o rico Tejo nas areias cria;


Antes que Febo com a idade eclipsado

E o claro dia feito noite obscura

A Aurora fuja do mortal nublado;


Antes de o que hoje é em ti ruivo tesouro

Vencer a branca neve na brancura,

Desfruta a cor, desfruta, e a luz, e o ouro.