Walt Whitman ou a ascensão e a queda da poesia moderna

05/10/2021 12:56:53
Editora Hedra
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Por Luis Dolhnikoff. 

Folhas de relva
Walt Whitman

Folhas de relva é um dos marcos fundadores da moderna poesia ocidental. Isto dito, o livro possui características particulares dentro da tradição moderna, que a introdução do tradutor Bruno Gambarotto desta edição do leito de morte sintetiza com grande acuidade e não menor abrangência: Walt Whitman foi o poeta da nação, do povo, das multidões norte-americanas, de um corpo gregário, aberto ao homem e à mulher, da palavra orientada pelo diálogo em praça pública, da vida vivida a céu aberto, no campo ou embalada pela brisa dos mares; mesmo a guerra, repleta de horrores e traumas, descobre a mão dadivosa, o dom de curar as feridas de um país dividido.

A morte que encontraremos nas Folhas não configura oposição ou obstáculo: quando não se presta à expiação da hybris (descomedimento) do conflito — necessária, segundo o poeta, ao renascimento da nação –, surge nas formas etéreas de uma realidade desconhecida, espiritual, anunciando a face lunar da vida sempre celebrada, porém finita. Mais do que edições de um mesmo livro, as sete versões de Folhas de relva revelam um processo interligado de produção e atualização de material poético.

Há dois momentos bastante distintos desse movimento: no primeiro, que engloba as quatro primeiras edições das Folhas (1855-56, 1860 e 1867), entram em choque diferentes concepções do volume como do papel do literato e de seu empenho em produzir uma poesia propriamente norte-americana, à altura do momento de crise de Guerra Civil que o país vivia; no segundo (1871-72, 1881-82, 1891-92), o trabalho do poeta é voltado à edição e à elaboração de textos que têm, em última instância, a missão de justificar a posição adotada.

A edição do leito de morte, que o poeta concluiria uma semana antes de morrer, marca a consolidação de um percurso tortuoso que condensa algumas das mais importantes conquistas da técnica literária moderna e a busca de uma incerta poesia nacional em um momento crítico da sociedade norte-americana. O fio condutor da história que dá liga às últimas Folhas, Whitman encontrará durante a Guerra de Secessão (1861-65), versada nos poemas de Repiques de tambor e sua sequência elegíaca, as célebres Memórias do presidente Lincoln.

O leitor perceberá que ambos os grupos ocupam o centro do volume, como se pudessem condensar a realização dos poemas que as antecedem (entre os quais estarão Canção de mim mesmo e as seções predominantemente líricas Filhos de Adão, dedicada ao amor entre homens e mulheres, e Cálamo, que aborda o amor entre homens, também chamado adhesiveness ou simplesmente comradeship) e marca a transição destes à expressão nacional de Às margens do Ontário Azul e das miscelâneas que dão o tom lúgubre da parte final do volume.

Contudo, a transição entre os momentos de elaboração das Folhas diz menos respeito ao acontecimento da Guerra do que à assunção de uma narrativa histórica nacional como eixo que distribui e conduz a antiga poesia. Mais do que a guerra, à qual Whitman passa a referir toda a sua poesia, é a descoberta de uma régua histórica de alcance nacional que torna possível a organização do livro, liberando sentidos apenas latentes ou infundindo o irrealizado ou jamais previsto na poesia pregressa. Mas a lição de Whitman, precursora da poesia moderna, ou modernista, seria perdida logo após o período heroico do modernismo, já na segunda metade do século XX. 

Passo a palavra a João Cabral de Melo Neto, em duas famosas conferências, de 1952 e 1954:

O poeta moderno, que vive no individualismo mais exacerbado, sacrifica ao bem da expressão a intenção de se comunicar. Por sua vez, o bem da expressão já não precisa ser ratificado pela possibilidade de comunicação. Escrever deixou de ser para tal poeta atividade transitiva de dizer determinadas coisas a determinadas classes de pessoas; escrever é agora atividade intransitiva, é, para esse poeta, conhecer-se, examinar-se, dar-se em espetáculo; é dizer uma coisa a quem puder entendê-la ou interessar-se por ela. Hoje não há uma arte, não há a poesia, mas há artes, há poesias. Cada arte se fragmentou em tantas artes quantos foram os artistas capazes de fundar um tipo de expressão original. A criação de poéticas particulares diminuiu o campo da arte. Em vez de seu enriquecimento, assistimos à especialização de alguns de seus aspectos, pois, em última análise, a criação de poéticas particulares não passa do abandono de todo conjunto por um aspecto particular. Esse aspecto particular passa a ser considerado pelo artista que o descobre o valor essencial da arte, e passa a ser desenvolvido a seu ponto extremo. [...] Portanto, o que verdadeiramente existe no fundo dessa fragmentação é o empobrecimento técnico.

Empobrecimento assim descrito por Cabral na segunda conferência:

O que os poetas contemporâneos obtiveram foi o chamado poema moderno, esse híbrido de monólogo interior e de discurso de praça, de diário íntimo e de declaração de princípios, de balbucio e de hermenêutica filosófica, monotonamente linear e sem estrutura discursiva ou desenvolvimento melódico, escrito quase sempre na primeira pessoa e usado indiferentemente para qualquer espécie de mensagem que o seu autor pretenda enviar.

Evidencia-se nessas falas de Cabral o surgimento e a predominância de uma poesia que parece negar frontalmente todas as conquistas pré-modernistas de Whitman. De fato, a poesia moderna, com o fim das formas fixas, entre outras coisas permitiria o surgimento de grandes poetas cuja sintaxe era prosaica, mas cujo prosaísmo foi compensado por um enorme poder discursivo e um não menor senso rítmico (ou estrutura discursiva e desenvolvimento melódico, nas palavras de João Cabral), com destaque para o próprio Whitman, seguido de Pessoa (Álvaro de Campos), Eliot, Bandeira e Ginsberg, entre outros. A poesia contemporânea, porém, não é, como regra, francamente, militantemente, assumidamente prosaica (salvo no poema em prosa), nem tem tal poder discursivo ou senso de ritmo. Mantém-se, assim, em um meio termo que só pode ser descrito como poesia prosaica – em mais de um sentido. A partir dos anos 1990, com o fim das últimas grandes referências teóricas, formais e ideológicas, a poesia sofre um crescente processo de atomização. 

Nesse processo, qualquer dimensão objetivo-social, ainda marcante nos derradeiros movimentos poéticos, que se debatiam, grosso modo, entre a forma útil (construtivismo) e o conteúdo útil (poesia engajada), é perdida, e substituída por um individualismo intenso, mas fraco. Individualismo fraco, em primeiro lugar, porque depois do modernismo não é mais possível o desafiante subjetivismo romântico-simbolista, que na língua inglesa desaguaria na obra de Whitman; em segundo lugar, porque a cultura ocidental não parece mais capaz de gerar grandes individualidades, como Walt Whitman ou Fernando Pessoa.